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Dentro da vasta área da cultura organizacional, falamos de valores e sua sistemática.  À luz do modelo de Edgar Schein - com seus pressupostos básicos, normas e valores e artefatos, acompanhamos algo que ocorre em diversas empresas: muitas pessoas não têm claro quais são seus valores e como são uma ferramenta poderosa de desenvolvimento humano.

 

Essa reflexão parte de quando conversamos com os colaboradores e fazemos apenas três questões: Quais são seus valores? O que você entende sobre eles? De fato, como você os aplica? Parece fácil de se responder, mas as respostas começam a travar quando vamos expandindo os questionamentos.

 

Comecemos do início, nossos valores representam nosso posicionamento perante o mundo, reduzem a incerteza do presente e são o reflexo da nossa Vida Interior. Diante de dilemas até situações simples, quando estamos conscientes ou até inconscientes, expomos nossos valores. Os valores auxiliam na formação do nosso caráter e manejo do nosso temperamento (herdado da família, por exemplo). Já a Vida Interior é aquele cultivo da dignidade humana, de autenticidade, do sentido de nossas vidas.

 

Este cultivo só pode ser mantido através de uma sistematização, neste caso através de práticas ou exercícios. O brilhante Pierre Hadot, filósofo e historiador francês, fez um árduo trabalho de explicar o real papel da Filosofia Antiga. A filosofia é um “exercício”, uma arte de viver. Assim, os antigos filósofos falam daquilo que viviam. Essa sistemática que influenciou a muitos pensadores. Hadot chamou isso de “exercícios espirituais”. Forte esse termo, não? Ele explica que esse termo “permite entender bem que esses exercícios são obra não somente do pensamento, mas de todo o psiquismo do indivíduo e, sobretudo, ele revela as verdadeiras dimensões desses exercícios: graças a eles, o indivíduo se eleva à vida do Espírito objetivo, isto é, recoloca-se na perspectiva do Todo”.

 

Podemos, assim, trazer inúmeros exemplos de exercícios espirituais, mas falaremos da reflexão acerca dos valores. Uma possibilidade é falarmos de Platão, o pai da filosofia ocidental, porém seria injusto tentar abordar seu legado num só texto! Vamos tomar carona na releitura de um Neoplatônico, Plotino. Nas Enêadas, obra compilada por seu discípulo Porfírio, Plotino fala do Uno e sua emanação. O Uno seria algo que nossa mente não consegue compreender em sua totalidade, pois nossa mente é dual. Sempre necessitamos de comparar algo, fazer analogias, etc. Entretanto, podemos vislumbrar a emanação deste Uno de Plotino que ocorre no surgimento do Ser, da Inteligência e da Criação.

 

Eu sei, estamos voando alto, né? Podemos fazer uma relação disto com o processo de criação humana. Primeiro precisamos idealizar algo, depois planejar e executar. Plotino dizia que as virtudes purificam o ser humano das tendências da matéria, como:  desejos, instintos. Eles são ruins? Não, apenas devem cumprir sua função de manejo da vida. E somente isso. Se fomos guiados totalmente por nossos desejos e instintos teríamos uma existência muito difícil conosco mesmo e com os outros...

 

Então, podemos considerar os valores com ideias também. Logo as três perguntas rementem a isso:

 

Quais são seus valores? Uma ideia.

 

O que você entende sobre eles? O que anima, qual é a parcela de sabedoria.

 

Como você os aplica? Sistematização consciente. Geralmente em situações que nos peçam um determinado controle de nós mesmos. O exame diário disto é fundamental, é tornar nossos valores vivos. É afinar nossa espada, refinar nossos gostos, afinar nosso piano, formar nosso caráter. Como diria Platão, na boca de Sócrates: “a vida que não é examinada não vale a pena ser vivida”. Quais são os seus valores? Como alinho meus valores com minha organização? Como lido com um conflito de valores?

 

Ah sim, tem mais coisas para se falar. Aguarde.

 

Fabiano Basso