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Seres humanos, felicidade e os smartphones: quem controla quem?

 

Você sabia que em 2016 o Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas emitiu um relatório afirmando que o acesso a Internet é um direito humano básico?

 

Dizer que a tecnologia faz parte da nossa vida é chover no molhado. Dizer que as pessoas estão usando demais o celular também já está virando lugar-comum. Nosso intuito aqui é outro. É refletir sobre o uso da tecnologia e o quanto isso pode estar nos afastando de uma outra necessidade humana básica, muito mais antiga: a de socializar.

 

Há décadas os antropólogos afirmam que o ser humano precisou viver em grupo para sobreviver. É fácil de imaginar: teríamos muito mais chances de caçar, defender-nos, sobreviver a ataques e períodos de escassez, quando estivéssemos em grupo. Muito de nosso comportamento social teria sido desenvolvido a partir dessa necessidade de sobrevivência. Mas esta não é a única teoria.

Erich Fromm, em seu livro “A Arte de Amar”, afirma que para o ser humano, separar-se é fonte de terrível ansiedade, pois significa desamparo e impotência frente à vida.

 

“A mais profunda necessidade do homem, assim, é a necessidade de superar sua separação, de deixar a prisão em que está só. A falência absoluta em alcançar esse alvo significa loucura, ...” (p. 16) porque só pode ser superado quando desaparece a separação.  Os seres humanos de todos os tempos querem, ou melhor, PRECISAM transcender suas individualidades e encontrar sintonia.

 

Isso é muito bem ilustrado por uma pesquisa incrível que vem sendo realizada em Harvard há 80 anos. Na década de 30, justamente durante a grande crise americana, um grupo de pesquisadores estava preocupado em saber o que poderia fazer as pessoas felizes. Durante estes 80 anos eles coletaram informações de pessoas de diferentes sexos, grupos socioeconômicos e momentos de vida. Um de seus principais achados foi que, mais do que dinheiro, fama, classe social, QI ou genética, o que mantém as pessoas felizes ao longo de sua vida são os relacionamentos verdadeiros com família, amigos e comunidade. Ter relacionamentos saudáveis também faz com que a vida seja mais longa. Em outras palavras, “a solidão mata” afirma Waldinger, coordenador do estudo.

 

No entanto, atualmente nos separamos o tempo todo, usando nossos aparelhos ao invés de falar diretamente e ficar com as pessoas. Por que?

 

Podemos pensar em dois motivos:

 

  1. Porque as tecnologias atuais desempenham em nossa vida e em nosso cérebro uma função de vício. Semelhante ao vício em substâncias com álcool ou cocaína, o uso do aparelho celular e das mídias sociais ativa em nosso cérebro o sistema de recompensa: um conjunto de estruturas, neurotransmissores e circuitos cerebrais que fazem com que tenhamos prazer numa atividade e consequentemente necessidade de repeti-la o tempo todo. Quando o objeto de vício está em jogo, todo o resto deixa de ser importante.
  2. Uma outra forma de enxergar é que de certa forma o comportamento de usar o smartphone representa também uma tentativa de socialização. Novamente citando Erich Fromm, muitas vezes os vícios são tentativas de fazermos desaparecer a separação em relação aos outros. Afinal de contas, os aplicativos mais utilizados no Brasil e no mundo hoje são principalmente de comunicação (como WhatsApp, Facebook, Instagram)! Só que provavelmente o tiro está saindo pela culatra. Pois o mesmo autor coloca: as tentativas desesperadas de diminuir a separação apenas o fazem a curto prazo para depois crescer novamente. Em outras palavras, é uma ilusão que apenas mascara/posterga a real necessidade de conexão humana.

 

Será que não está na hora de recuperarmos nossa condição humana mais essencial? Quer dizer, e se não houvesse celular? Sobreviveríamos? Será que não deveríamos questionar o fato de 80% dos jovens entre 9 e 17 anos utilizarem ativamente Internet e de 3 em cada 5 pessoas fugirem para o seu smartphone em situações sociais desconfortáveis?

 

Não se trata de endemonizar as tecnologias. Tal tentativa seria frustrada, irrealista e até hipócrita (visto que estamos utilizando a tecnologia neste exato momento). Trata-se sim de colocar cada coisa no seu lugar. É uma questão de justiça. Justiça com a tecnologia, mas principalmente conosco e com a nossa felicidade.

 

Afinal de contas, você controla seu celular ou ele controla você?

 

Gerson Siegmund e Rodolfo Dall´Agno