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A temática do propósito está virando uma febre. Afinal de contas, todos sabem e sentem que uma vida com propósito é muito mais interessante. Porém, tudo que cai “na moda” pode acabar sendo tratado de forma superficial, gerando mal-entendidos. Por exemplo, algumas empresas chegam ao ponto de trocar as missões e valores pelo seu propósito. São coisas diferentes! O propósito é o espírito que anima as coisas. Missão é uma grande meta a ser atingida. E valores são o posicionamento frente ao mundo e as ferramentas com as quais realizamos nosso trabalho. Todos estes elementos se completam, não devem ser confundidos, sob o risco de a empresa perder força e foco.

 

O propósito é que vai dar sentido e orientar as metas. Por exemplo, considere um profissional da saúde que tem o propósito de ajudar as pessoas a terem uma melhor qualidade de vida. Ele nunca irá completar este propósito, pois sempre haverá pessoas com aspectos a melhorar em sua vida. Mas ele terá metas a serem cumpridas para um paciente específico, para se aprimorar profissionalmente ou para fazer um trabalho interdisciplinar. Através destas metas ele vive seu propósito.

 

Um equívoco muito comum é pensar que o propósito é algo totalmente subjetivo, incompreensivelmente abstrato. Isso é coisa de quem não vive e/ou não estuda o tema. Segundo McKnight e Kashdan (2009), o propósito tem três dimensões:

 

  1. Escopo: o quão onipresente é o propósito na vida de uma pessoa;
  2. Força: o quanto o propósito influencia as ações, pensamentos e emoções do indivíduo;
  3. Consciência: o quanto uma pessoa está ciente e consegue articular seu propósito.

 

Mas sim, para além das teorias, a busca do propósito é uma jornada fantástica ao encontro de si mesmo! Vitor Frankl (2008, obra original de 1977), um famoso psiquiatra austríaco que passou pelos campos de concentração nazistas, afirmou que o propósito é o eixo para uma boa vida humana e que a felicidade vem da lealdade a um propósito digno. Aristóteles também abordou este tema em seu estudo da finalidade, ou Teleologia. Ele explica que o propósito é inerente a todos os seres, mas que deve ser posto em movimento. Saber seu propósito, mas não colocá-lo em ação é ineficaz e inútil. Em outras palavras, o propósito deve ser VIVIDO.

 

E como fica o propósito no mundo organizacional?

 

Bem, uma vez que a organização tem um propósito bem definido, ela deve buscar um alinhamento deste com o propósito de seus colaboradores. O propósito da organização pode ser o critério principal para se discutir e estabelecer a conduta e o engajamento dentro do ambiente de trabalho. Além disso, ele deve ser entendido e sentido também pelos clientes, conforme afirma Márcio Oliveira (2017). O propósito da organização pode ser algo nobre e bonito, mas não terá força se for apenas uma frase desconectada e teórica. O propósito deve estar presente nas grandes ações e também nos pequenos detalhes (escopo, força e consciência). Ou seja, o verdadeiro propósito deve se desenvolver de dentro para fora. Essa é a ideia por trás do conceito de “círculo dourado” de Simon Sineks: o “porquê” é o círculo dourado mais interno, o segundo círculo é “como”, e o terceiro é “o que”. A organização deve ter um propósito claro, planejar como irá realizar este propósito para só então oferecer um produto que reflita o seu propósito. Nenhuma empresa se torna próspera sem ter um círculo dourado claro e forte que é executado através dos outros dois círculos.

 

As empresas do futuro apenas se manterão à medida que reconhecerem que os critérios de motivação e engajamento de seus colaboradores estão mudando. A geração que trabalhou somente para ter dinheiro e comprar coisas está sofrendo com o vazio de uma vida que ficou ocupada demais e ao se aposentar começam a entender que poderiam ter ido além disso. No fim das contas, as empresas do futuro deverão ter como objetivo fortalecer seu propósito e entender o lucro não mais como a principal finalidade, e sim como um catalisador.

 

Referências

McKnight P.E. & Kashdan, T. B. (2009). Purpose in life as a system that creates and sustains health and well-being: An integrative, testable theory. Review of General Psychology. 13(3):242–251. doi:10.1037/a0017152.

Frankl, V. (2008). Em busca de sentido: Um psicólogo no campo de concentração. Petrópolis: Vozes.

Oliveira, Márcio. (2017). O Real Propósito da Empresa. Revista Exame Online. Disponível em: https://exame.abril.com.br/blog/relacionamento-antes-do-marketing/o-real-proposito-da-empresa/ Acesso em 06/12/2017.

 

Fabiano Basso e Gerson Siegmund